Zema Ribeiro entrevista Odair José

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Na próxima sexta feira, 7 de abril, o cantor Odair José apresenta em São Luís, na Casa das Dunas (Av. Litorânea), às 21h, o show A noite mais linda do mundo. O jornalista Zema Ribeiro fez uma entrevista com o artista, publicada no seu blog (http://oimparcialblog.com.br/zemaribeiro/)

Leia abaixo a integra da entrevista que, é bom que se diga, ficou muito boa.

Zema Ribeiro – Homem de vícios antigos – Você sempre foi um artista que cantou o que quis, de modo explícito. Esse seu novo disco, Gatos e ratos, ajusta a mira na classe política do país. Como você observa esse momento conturbado que o país atravessa?

Odair José – Você falou bem: eu sempre fui um cronista das coisas que vejo. Eu sempre falei de uma forma muito explícita, o meu recado sempre foi na reta, eu nunca dei volta. Por isso mesmo, até, no passado, eu tive dificuldades, às vezes, com a censura do governo, e tenho até hoje dificuldade ao dizer as coisas com essa censura hipócrita da sociedade. Eu escrevo justamente sobre o que eu vejo, mais do que o que eu sinto. O que eu vejo é que nós estamos vivendo uma época muito difícil, no mundo todo, mas no Brasil especificamente, de uns anos pra cá, eu vou cada vez ficando mais assustado com a falta de ética na política brasileira. Como isso interfere na vida do cidadão? Totalmente. A política brasileira é um reflexo da sociedade? Pode ser. E é isso que é mais assustador ainda.

Zema Ribeiro – Você sofreu censura da ditadura militar brasileira e da igreja católica, embora esse assunto só tenha vindo à tona por iniciativa do historiador Paulo César de Araújo, no livro Eu não sou cachorro, não. Ídolo popular, o Chacrinha também apontou o dedo pra você e outros cantores famosos da época. Como é que você relembra esses fatos, hoje?

Odair José – Eu tive muita dificuldade com determinados segmentos. Segundo pesquisas, eu fui o segundo mais censurado deste país. Isso não é uma glória, isso é uma coisa muito chata, isso não é para se comemorar, é para se lamentar. Com respeito ao Chacrinha, eu tive dificuldades com Chacrinha no sentido de que, quando ele se desligou da TV Globo eu fui contratado pela TV Globo. Eu não podia, naquele momento, me apresentar no programa que ele tinha no canal de televisão dos Diários Associados. Então o Chacrinha começou a fazer uma campanha muito grande contra o Odair José, especificamente. Mas mais por conta desse negócio do contrato. O Chacrinha eu acho que não tinha nada exatamente contra o Odair José. Mas ele chegou a ir até o João Calmon, que era o superintendente geral dos Diários Associados, para pedir a não execução de meus discos nos Diários Associados, que naquele momento tinha uma rede de rádio muito grande no Brasil. Mas isso terminou não acontecendo e depois, mais tarde, depois do contrato vencido com a Globo, acabei me apresentando no Chacrinha e ficou o dito pelo não dito. Mas eu sempre tive essa dificuldade. A Igreja Católica especificamente nunca me olhou com bons olhos, por conta dos meus questionamentos. Eu sou assim meio pé atrás quando as pessoas manipulam. Eu vejo o povo sendo manipulado por segmentos religiosos e isso incomoda as pessoas.

Zema Ribeiro – Você também foi pioneiro ao trazer em sua obra temas como as empregadas domésticas e as prostitutas. Há alguns anos a PEC das domésticas causou furor em setores da elite nacional. Você se considera um visionário?

Odair José – Eu vou falar primeiro da prostituta. Eu tenho um sonho, eu estou com 68 anos e possivelmente eu não vá ver isso, nem se eu vivesse 150, mas eu tenho um sonho desde 1972, quando eu fiz a música Eu vou tirar você desse lugar, que é contando a história do cara que se apaixona por uma prostituta e casa com ela. A minha intenção era chamar a atenção para um problema existente. Isso é um fato, isso acontece e não acontece de agora: acontece há mais de 2000 anos. O meu sonho, que eu disse que não vou ver, é ver a prostituição sexual ser reconhecida como trabalho. Ter uma carteira, ter o reconhecimento da sociedade e não ser visto como uma podridão, como uma coisa marginalizada. Isso é um absurdo, é uma hipocrisia maior que o mundo. Esse sonho talvez eu não vá realizar, eu tenho dito isso no microfone, tenho dito isso no palco quando vou cantar a música. Tem duas coisas que eu sonho: gostaria de ver o comércio do sexo, que é uma coisa tão antiga, o que seria do mundo se não fossem as prostitutas? Os homens fazem uso disso há quantos anos? Seja de que segmento social for, ele já fez ou vai fazer isso. E

por que ignorar isso? E também o negócio da maconha: acabar com a discriminação da maconha, [esse discurso de]que tem que criminalizar, que quem usa maconha é bandido, e não é. Tem que liberar! Eu falei em uma música em 1974, a música A viagem, já falando sobre isso. Enquanto não resolver também essa hipocrisia, por que tem setores importantíssimos que lucram com isso. Essas coisas todas têm que ser revistas na nossa sociedade. Com respeito à empregada, na nossa sociedade a empregada servia pra tudo: pra trabalhar tipo escrava, pra ser escrava sexual do patrão ou do filho do patrão e assim ia, e não era reconhecida profissionalmente. Eu falei para chamar a atenção, na época as pessoas até ironizaram a canção, e só no governo da Dilma, em 2014, é que houve alguma coisa em benefício das empregadas domésticas. Eu não me considero um visionário, eu apenas vejo as coisas e falo e às vezes incomoda. Como você falou do Gatos e ratos, eu estou falando um monte de coisas e às vezes as pessoas podem não gostar. Mas alguém tem que falar. Eu não me sinto bem não falando, acho que é minha função como cidadão.

Zema Ribeiro – Ainda nos anos 1970 você deu uma guinada na carreira ao gravar a ópera-rock O filho de José e Maria [de 1977].

Odair José – Que está fazendo 40 anos este ano.

Zema Ribeiro – Isso! Este novo disco foi gravado apenas com você e mais dois músicos, no formato roqueiro de power trio. O rock sempre te interessou?

Odair José – Sempre me interessou. É engraçado isso, as pessoas se assustarem um pouco com isso, mas quem me conhece de perto, [sabe que]eu sempre fui ligado a esse tipo de coisa, essa coisa de rua e o rock é uma coisa de rua. Eu sempre gostei, eu ando com a guitarra no pescoço desde meus 15 anos de idade. Odair José sempre se apresentou pelo Brasil como um trio, quando muito um quarteto. Às vezes as pessoas se assustavam. Em determinado momento, quando eu tinha condições de levar produções maiores, eu não levava, por que eu achava que eu tinha que me apresentar daquele jeito. E era uma coisa meio incoerente, por que às vezes o disco tinha sido gravado de uma outra maneira, por uma questão de mercado, de gravadora, de filosofia de gravação, você às vezes usava outros instrumentos que não fossem a guitarra, o baixo. Mas agora que estou tendo a liberdade para fazer isso. Eu já quis fazer em 1977, O filho de José e Maria ia ser gravado como foi gravado agora o Gatos e ratos. É que na época a gravadora mais uma vez não permitiu. Mas eu tive a felicidade de ter o Azimuth junto e fizemos um grande disco. Há 40 anos foi gravado um disco que hoje você escuta, você há de concordar, tem muita qualidade, tanto na gravação quanto na execução dos músicos. Ele foi muito bem pensado. Agora eu estou conseguindo fazer isso: eu sempre me apresentei pelo Brasil afora, eu e mais dois ou três músicos. Era esquisito, por que de repente, o cara ouve um disco, aquele monte de instrumento, violino, sopro e não sei o quê, e quando vai ver o show via um cara com a bandinha pequenininha de garagem, e agora eu estou procurando ser honesto, eu sou isso aqui. Eu vou fazer o show e o cara vai ouvir o Gatos e ratos. Eu consigo levar aquele som pro palco.

Zema Ribeiro – Uma forma até de tornar tua obra ainda mais popular, já que isso permite circular com menor custo.

Odair José Isso é um ponto. Outro ponto é o seguinte: eu acho que não tem como não ser popular uma coisa, você falando de coisas que estão no dia a dia das pessoas, com guitarra, baixo e bateria, quando muito, às vezes, um piano ou um teclado, com três acordes, quatro acordes, que é a música que eu faço. Onde isso não é popular? Eu acho que é popular. E como você falou: fica mais fácil até de eu andar por aí.

Zema Ribeiro – O maranhense Zeca Baleiro tem alguma responsabilidade nessa nova fase desse culto a Odair José, contribuiu de alguma maneira para conquistar novos fãs. Como vocês se conheceram e como pintou essa amizade?

Odair José – Sim, é engraçado isso. Na verdade, minha proximidade com Zeca começou com 2005 ou 2006, já se vão 11 anos. Quando o Zeca apareceu eu fui a um show dele no Rio, no antigo Teatro da Lagoa, nem falei com ele, ele apareceu para tocar e eu fui assistir com um amigo meu. Eu gostei do Zeca. Mais tarde tive a oportunidade de tocar com o Zeca numa noite num Sesc aqui de São Paulo, o Sesc Ipiranga. Depois o Zeca participou daquele tributo que fizeram em

homenagem a Odair José [Eu vou tirar você desse lugar, de 2009], ele cantou Eu, você e a praça, e eu e o Zeca começamos a nos encontrar, a nos apresentar, ficamos amigos. Zeca é uma pessoa muito generosa, acho que isso é do maranhense, eu me dou bem com um monte de maranhenses. O Zeca é um cara boa praça pra caramba, inteligente, focado, sabe fazer a leitura das coisas. Eu tinha pensado em 2009, por aí, 2010, “ah, eu não vou gravar mais discos, não, eu já tem música demais, acho que não precisa, eu tenho tanta música”. Eu vou pro palco e não consigo cantar todas, o povo ainda fica pedindo, dizendo que eu não cantei a que ele queria. Meu show é um show que não satisfaz, por que eu saio do palco e “ah, você não cantou minha música”. Você não consegue cantar tudo, né? Foi quando o Zeca me convidou para fazer um disco lá na Saravá [Discos, selo de Zeca Baleiro]. Eu falei: “ah, Zeca, eu não tou a fim de fazer disco, não”. E fiz aquele disco até dizendo que seria o último disco da minha carreira. Depois eu me interessei de novo pela coisa, acordei de novo.

Zema Ribeiro – Ainda bem.

Odair José – Ainda bem, né? Ele é gente muito boa, gosto muito do Zeca.

Zema Ribeiro – Por falar nele, qual a expectativa por este show aqui na terra natal do amigo?

Odair José – A minha expectativa é grande. Faz tempo que eu não vou aí. A última vez eu estive com o Zeca, cantei três músicas a convite dele. Antes, fazia tempo que eu não ia a São Luís. Eu estou rodando, já fiz três shows em São Paulo, sábado fiz Belo Horizonte. Eu procurei o Zeca para saber de que forma eu poderia me programar em São Luís. Ele estava nos Estados Unidos, nem cheguei a falar com ele, achei o Ricardo Pororoca e falei: “bicho, eu tenho que passar por aí”. Quero até mandar um abraço pro Ricardo, aí da Casa das Dunas. E depois falei com Zeca, e ele me disse: “vai cantar numa boa casa”. Eu estou levando um show, deveria se chamar Gatos e ratos, mas o Ricardo botou A noite mais linda do mundo, que também tá bom. Meu show, minha intenção é divertir as pessoas, matar as saudades minha e das pessoas das canções, mas também mostrar as coisas novas, cantar um pouco do passado, mas também não esquecer o presente.

Zema Ribeiro – Então o repertório vai ser um pouco de Gatos e ratos e um pouco dos clássicos da carreira?

Odair José – Claro! Vou cantar tudo. Vou cantar músicas do Gatos e ratos, de O filho de José e Maria, do Dia 16. O show dura mais ou menos uma hora e 40 minutos, dá para cantar umas 22 músicas. Vou cantar uns 15 clássicos, aqueles que eu acho que têm a ver. Qual é a intenção? Fazer as pessoas pararem para pensar: o que é que esse cara tá falando aí? Eu vou tirar você desse lugar, A pílula [Uma vida só (Pare de tomar a pílula)], essas estarão no show.

Zema Ribeiro – Hoje o que te desperta interesse? O que você tem ouvido e te chamado a atenção?

Odair José – Eu tenho ouvido pouco. É um erro meu, mas eu tenho ouvido pouco. Os meus ídolos continuam sendo os mesmos lá de trás. No Brasil, se você vai ouvir alguma coisa, eu vou no trabalho alternativo. Os grandes talentos estão no nosso trabalho alternativo. Infelizmente os trabalhos que estão na grande mídia estão uma mesmice danada. Eu, inclusive, estou querendo ser uma alternativa a essa mesmice, eu não quero ser essa mesmice. Quem repete fórmulas não faz arte, faz negócio. Eu acho que você vai encontrar arte no trabalho alternativo.

Zema Ribeiro – Nesse meio alternativo você citaria nomes?

Odair José – Tem um monte, mas como eu te disse eu tenho escutado pouco, sou meio desatento. Se eu for citar um ou outro eu vou esquecer tantos. Tanta gente boa. Vou citar um, por exemplo: O Terno. É um power trio ótimo. Todas as linhas do alternativo são boas, por que o cara quando faz um trabalho alternativo está pensando na arte. Aposto que aí em São Luís tem, como deve ter em todos os estados brasileiros. Mas aí fica essa coisa dessa grande mídia, mostrando essa mesmice toda que não é música, não é arte, isso é um negócio. Esse tipo de coisa eu não gosto, que me desculpe o povo brasileiro, mas eu não gosto.

Zema Ribeiro – Além de Gatos e ratos ser um disco muito explícito é um disco em que inevitavelmente você volta a temas sobre a liberdade, a liberdade de fazer o que quiser, as liberdades individuais. Estamos vivendo quase uma nova ditadura sem os tanques nas ruas.

Odair José – Houve uma jornalista, uma colega sua, que me disse que se esse meu disco tivesse sido feito na década de 1970 ele não teria sido liberado, música nenhuma. Eu concordo com ela. Eu falo desse metro quadrado em que as pessoas estão enquadrando a gente. Eu concordo com você. Nós estamos vivendo uma ditadura hipócrita de tal forma, essa coisa da sociedade, está assustadora. Eu pensava que não fosse ver duas coisas: o avanço da tecnologia, que eu tinha certeza que ia acontecer, mas achava que eu em vida não veria, e estou vendo. A tecnologia todo dia surpreendendo a gente, e a medicina em paralelo a isso também, só não temos esse progresso da medicina nos hospitais públicos. Eu pensava que com o passar dos anos eu fosse ver a melhora do ser humano como um todo. E eu vejo, parece que o ser humano tá piorando. Eu não sei se é por essa opressão. No meu disco, tem uma música chamada Livre, que eu questiono isso: quem é verdadeiramente livre? Ninguém é. Nesse disco eu estou clamando as pessoas para pararem com esse preconceito sexual das pessoas. As pessoas têm preconceito sobre a opção sexual, como em Moral imoral eu falo isso. Deixa cada um ter sua opção sexual, para de meter o dedo. Eu falo no trânsito. O trânsito em qualquer capital brasileira, São Luís, Rio, São Paulo, Goiânia, Recife, as pessoas estão em uma disputa insana, é uma coisa louca. As pessoas têm que se acalmar. Eu vejo muita esperança nessa juventude mesmo para ter uma melhora. Nós, os adultos, gente próxima à minha idade que está no poder, isso aí só tá levando pro brejo. E vivemos sim um momento muito difícil: só faltam os tanques na rua.

Zema Ribeiro – Você falou em tecnologia. Como você se relaciona com ela? Baixa música, vê youtube, usa redes sociais?

Odair José – Eu não sei mexer com isso. Eu sou um cara das cavernas. Eu demoro para trocar de celular, por que toda vez que eu troco eu demoro dois anos para aprender a mexer. O mundo digital permitiu a gente tanta coisa boa, é uma liberdade. Eu sei que tem muita coisa errada, mas é uma liberdade. Eu posso fazer o meu disco, ele pode chegar até você, o público pode ter a liberdade de ouvir o meu disco sem ele estar passando por um filtro de programação de grandes mídias. Não que eu tenha nada contra a grande mídia, mas você sai daquele quadrado, você está livre. Eu vejo isso de uma forma muito boa.

Zema Ribeiro – Inclusive muita gente conheceu, para ficar em um exemplo que a gente já falou, O filho de José e Maria através de sites de download, youtube.

Odair José – Não é, cara? Hoje O filho de José e Maria é um sucesso. Ele está na minha carreira como uma coisa importantíssima. E o disco foi crucificado, foi desclassificado há 40 anos. Por que um círculo pequeno de mídia, um círculo pequeno de quem mandava determinou que ele não seria um sucesso. Hoje ele está aí, e quem gosta de O filho de José e Maria? Gosta o pessoal mais jovem, que está aí nos youtubes da vida, nas redes.

Zema Ribeiro – Às vezes é preciso tempo para reconhecer a grandeza de uma obra, de um artista.

Odair José – Outro dia eu fui fazer um show aqui em São Paulo, no Sesc Itaquera, que é um lugar aberto, gigantesco. Depois do show eu fui falar com as pessoas e tinha uma garota do Rio de Janeiro, de Nova Iguaçu, aquela região da baixada. E ela falou que eu só tinha tocado duas músicas de O filho de José e Maria. “Ah, eu achei que você ia tocar mais, você tem que ir ao Rio apresentar esse projeto”. Ela virou pra mim e disse assim: “que aliás é um projeto que só vai ser compreendido daqui a 40 anos”. Eu virei pra ela e falei: “então lascou, por que ele já tem 40” [risos]. Eu tou fazendo disco pra não lucrar com ele nunca.thumbnail_Odair José

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