No Portal CTB

Mais uma vítima do ódio de classe no país. A sindicalista Francisca das Chagas Silva foi encontrada morta na lama na cidade de Miranda do Norte, no Maranhão. Ela era dirigente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Miranda do Norte.

O corpo foi encontrado nu, com sinais de estupro, estrangulamento e perfurações. “O simbolismo desta imagem, é do escárnio de como são tratadas as reivindicações e a luta das mulheres para serem vistas, tratadas e respeitadas na lei e na vida como seres humanos”, revolta-se Isis Tavares neves, presidenta da CTB-AM.

Já Ivânia Pereira, secretária da Mulher Trabalhadora da CTB, afirma que “é lamentável mais uma morte de uma grande mulher. Lutadora pelos direitos de igualdade e justiça no campo”. Ela diz também que “esse crime reforça a necessidade de implementação de uma grande aliança de todos os setores civilizados da sociedade para dar um basta em tamanha crueldade, sofrida principalmente por quem luta para acabar com isso”, complementa.

Já Isis afirma que “enquanto formos vendidas na mídia, nas igrejas, na escola, no parlamento, nas famílias, como seres que só têm a dimensão biológica da reprodução, estaremos reproduzindo e reforçando uma cultura machista e misógina e aumentando as estatísticas dos crimes contra as mulheres, sejam eles de que tipo for”.

De acordo com Ivânia, “a CTB rechaça todo tipo de violência e exige apuração rigorosa desse crime hediondo e a imediata prisão de todos os envolvidos. Tanto quem executou o crime, como quem mandou executar”.

 

 

 

 

matopiba mapa

 

Por Leovigildo Santos, em Florestal Brasil

A expressão MATOPIBA resulta de um acrônimo criado com as iniciais dos estados do Maranhão,Tocantins, Piauí e Bahia. Essa expressão designa uma realidade geográfica caracterizada pela expansão de uma nova fronteira agrícola no Brasil baseada em tecnologias modernas de alta produtividade.

A delimitação da região foi realizada pelo Grupo de Inteligência Territorial Estratégica da Embrapa (GITE) que utilizou como primeiro grande critério as áreas de cerrados existentes nos Estados. Foi baseada em informações numéricas, cartográficas e iconográficas, resultando na caracterização territorial dos quadros natural, agrário, agrícola e socioeconômico.

O Plano de Desenvolvimento Agropecuário do MATOPIBA (PDA-Matopiba), engloba a totalidade do estado do Tocantins e parcialmente os outros três estados mencionados, segundo o censo de 2010 a região possui cerca de 6 milhões de habitantes. São cerca de 73 milhões de hectares distribuídos em 31 microrregiões e 337 municípios. Há cerca de 324 mil estabelecimentos agrícolas, 46 unidades de conservação, 35 terras indígenas e 781 assentamentos de reforma agrária e áreas quilombolas, num total de cerca de 14 milhões de hectares de áreas legalmente atribuídas, além de áreas de conservação ainda em regularização.

Até a primeira metade do século 20, essa grande área era coberta por pastagens em terras planas e vegetação de cerrado e caatinga. A agricultura era considerada improdutiva. Desde 2005, houve um fenômeno de expansão da atividade agrícola com o surgimento de fazendas de monocultura que utilizam tecnologias mecanizadas para a produção em larga escala. Apesar da sua deficiência em infraestrutura, a predominância do relevo propício à mecanização, as características do solo, o regime favorável de chuvas e o preço da terra constituem alguns dos principais fatores chamativos para o investimento de grandes produtores na região.

O MATOPIBA começou a ser explorado para o agronegócio a partir da década de 1980. Agricultores da região Sul migraram para a região, atraídos pelas terras baratas. Logo, as pastagens extensivas nos cerrados foram substituídas por uma agricultura mecanizada e áreas de irrigação. Porém a ocupação desse território remonta à época da colonização portuguesa no Brasil, com o surgimento de arraiais movidos pela mineração, a criação de gado e a agricultura de subsistência.

Por que essa região é considerada a última fronteira agrícola brasileira?

Até os anos de 1960, acreditava-se que as últimas fronteiras agrícolas a serem exploradas no Brasil eram a região Norte e Centro-Oeste. Isso até a primeira década dos anos 2000, quando o MATOPIBA surgiu com o status de “a última fronteira agrícola”.

A atividade agrícola tem se ampliado de maneira veloz no MATOPIBA. Nos últimos quatro anos, somente o estado do Tocantins expandiu sua área plantada ao ritmo de 25% ao ano, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Até 2022, segundo projeções do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o Brasil plantará cerca de 70 milhões de hectares de lavouras e a expansão da agricultura continuará ocorrendo no bioma Cerrado. Somente a região que compreende os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia terá, nesse mesmo período, o total de 10 milhões de hectares, o que representará 16,4% da área plantada e deverá produzir entre 18 a 24 milhões de toneladas de grãos, um aumento médio de 27,8%.

Projetos de pesquisa da Embrapa estão em desenvolvimento na região, a maior parte do orçamento (59%) é destinada ao melhoramento genético. Neste tema, a soja merece destaque: 39% dos recursos (o equivalente a cerca de 26,8 milhões de reais) são aplicados em pesquisas envolvendo essa cultura. No tema sistemas de produção a soja também se destaca, recebendo 27% do total de recursos. Em relação aos temas transversais, adubação e mudanças climáticas atingem juntos 60% do orçamento. No tema transferência de tecnologia, os projetos com maior aporte financeiro são os que envolvem recursos hídricos, seguidos pelos que envolvem agricultura familiar e Integração Lavoura – Pecuária – Floresta (ILPF).

Onde entra o setor florestal nesse contexto?

O Setor florestal tem um grande espaço nessa região, ocorrerá um crescimento em porcentagem dos produtores de grande porte e das grandes empresas, parte das áreas de plantios já consolidadas serão incorporadas pelas grandes indústrias siderúrgicas e de papel e celulose presentes na região (Ex.:SINOBRÁS Florestal e SUZANO Papel e Celulose) e por outras que serão instaladas (Ex.: indústria de papel e celulose da Braxcel prevê início das operações em 2021 no sul doTocantins). Os pequenos e médios produtores dependerão dos pequenos consumidores e irão produzir com maior diversidade de espécies (teca, seringueira, neem, canafístula, paricá, entre outras) com a finalidade de continuar no mercado.

O espaço para implantação de indústrias de grande porte é mais um atrativo da região, enquanto nas regiões mais industrializadas do país apresentam-se já quase que saturadas em termos de grandes indústrias, no MATOPIBA há um espaço vasto a ser explorado para a implantação de grandes projetos industriais de base florestal. A possibilidade de transporte de produtos por hidrovias, rodovias e pela ferrovia Norte-Sul torna ainda mais viável a implantação de grandes projetos, além das distâncias com mercados externos como EUA e Europa serem menores em relação aos portos das regiões Norte e Nordeste quando comparados aos portos das regiões Sul e Sudeste tornando mais viável a exportação. Preços de terras mais atrativos, aproximação com os novos mercados consumidores, redução da pressão de grandes empreendimentos em grandes aglomerados urbanos e incentivos fiscais são outros fatores favoráveis à silvicultura nessa região.

A pressão sobre o meio ambiente:

A questão da expansão da produção agrícola e a preservação da vegetação nativa é um conflito comum no espaço rural brasileiro.

O MATOPIBA abriga as últimas áreas de cerrado nativas e o bioma está presente em 90% do território. Nos últimos anos, grandes extensões de terras foram desmatadas. Segundo a organização WWF Brasil, pequenos e médios produtores têm promovido desmatamentos ilegais no território e plantio sem manejo adequado.

Para o Ministério da Agricultura, a tendência é de que a expansão no território ocorra principalmente sobre terras de pastagens naturais, convertendo áreas antes destinadas à pecuária em lavouras.

Para que o equilíbrio de processos ecológicos na zona rural seja mantido é necessária a destinação de áreas de proteção com cobertura natural, de forma a cumprirem sua função de conservação e proteção da fauna e da flora originais.

Como forma de preservação da biodiversidade, a região conta com 46 Unidades de Conservação consolidadas totalizando uma área protegida de 8.838.764 de ha (12,08% da área total), uma área muito pequena se pensarmos na área total da região e na importância que ela representa em termos de biodiversidade e de recursos hídricos, pois engloba regiões hidrográficas de extrema importância para o abastecimento dos estados do norte e nordeste brasileiro. São elas a Bacia do Tocantins-Araguaia, Bacia do Atlântico – Trecho Norte/Nordeste e Bacia do Rio São Francisco, os principais rios dessas bacias presentes na região são: Araguaia, Tocantins, São Francisco, Parnaíba, Itapicuru, Mearim, Gurupi e Pindaré.

Vale ressaltar ainda que nos quatro estados abrangidos pelo MATOPIBA existem áreas de transição entre diferentes tipos de vegetação, essas áreas são os ecótonos ou zonas ecotonais. Essas zonas são extremamente frágeis à pertubações, pois as espécies presentes em ecótonos normalmente são adaptadas somente a condições e características ambientais típicas dessa áreas, além do fato de que a biota dos ecótonos apresenta um alto nível de endemismo. As áreas de transição presentes nos estados do MATOPIBA englobam os ecótonos Cerrado-Amazônia, Cerrado-Caatinga, Cerrado-Mata de Cocais e Cerrado-Pantanal, são áreas pouco estudadas, de grande biodiversidade e fragilidade que sofrerão grande impacto caso não ocorra sua devida proteção, espécies de alto valor ecológico e econômico podem desaparecer sem ao menos serem estudadas.

Um estudo da Embrapa prevê que 73% dos cerrados da região abrangida pelo MATOPIBA seriam passíveis de ocupação pela agricultura, mas que 24% desses territórios seriam “potencialmente” preservados dentro das propriedades rurais, devido à determinação, no Código Florestal, de preservação de 20% das matas nativas nas áreas de cerrado e de 35% nas áreas abrangidas pela Amazônia Legal, que correspondem a 60% de todo o MATOPIBA.

Os povos indígenas, quilombolas e as comunidades tradicionais enviaram um documento ao congresso afirmando que o Plano de Desenvolvimento Agropecuário do MATOPIBA (PDA – Matopiba) impactará agressivamente o bioma Cerrado, além de desconsiderar e tornar invisíveis dezenas de povos que, há anos, buscam a regularização de suas terras, aumentando a grilagem das terras e a violência física e psicológica já existentes contra as populações do Cerrado.

Mais informações sobre o PDA-MATOPIBA estão disponíveis no site da Embrapa, acesse clicando aqui.

Fontes: Embrapa DECRETO Nº 8.447, DE 6 DE MAIO DE 2015

http://racismoambiental.net.br/?p=199952#.VrDtec82xe8.facebook

 

 

São Luís, janeiro de 2016. O governo Flávio Dino mantém a memória de Sarney dentro do Convento das Mercês. Após um ano da nova gestão, não são percebidas mudanças relativas à invasão e golpe ocorridos em 1990, no famoso e imponente prédio que ocupa, no Centro Histórico, uma área de 6500 m² e teve sua construção iniciada no século XVII.

O problema começou e continua a partir da existência da antiga Fundação José Sarney, novamente disfarçada com o nome de Fundação da Memória Republicana. Foi com ela que o ex-senador do Amapá tomou posse do imóvel e lhe transformou numa extensão da Ilha de Curupu. Trata-se de uma instituição idealizada por ele há mais de 25 anos e reorganizada no último governo de Roseana, ocasião em que foi denunciada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MA). Esta denúncia da OAB foi apenas mais uma na folha corrida desta Fundação, que já foi uma instituição privada e agora sobrevive camuflada de pública.

Neste processo de usurpação do Convento, Sarney e a Fundação tornaram-se uma coisa só. E é esta mesma Fundação - que tem uma vida marcada por fraudes, farsas e esbulhos - que continua permitindo a presença de documentos, presentes, livros, estátua, carros, fotos, vídeos e frases impressas nas paredes, exaltando o insistente candidato a faraó. Segue a afronta. E Flávio Dino prometeu que “devolveria o convento ao povo”. Hoje, em janeiro de 2016, a promessa ainda não foi cumprida e ficam no ar as seguintes perguntas:

Por que o atual governo não extingue a Fundação e tira o acervo dela do Convento? A quem interessa a Fundação? À história da república brasileira? À sociedade? Aos estudantes? Aos pesquisadores? À autoestima maranhense? Ou ao oligarca que lhe idealizou? Em que outro lugar do Brasil tem um espaço que reflita tamanho atraso e submissão política? O dinheiro do contribuinte vai continuar financiando esta tentativa de fraudar a história? De forjar uma biografia? Para a Fundação continuar existindo houve uma conciliação? Por que segue tudo praticamente igual? Flávio Dino, que prometeu mudança, vai consolidar a vinculação da memória de Sarney ao patrimônio histórico? Será este o papel do “proclamador da república”? O atual governo vai legitimar a falaciosa “memória republicana”. Ou Flávio Dino mudou de planos e resolveu ser um primeiro ministro, na monarquia maranhense? Vai prevalecer, então, a lei do quero, posso e mando? Alguém perguntou à sociedade, aos donos do imóvel, se eles queriam entregá-lo? Por que os documentos ligados à fatídica presidência não podem ser guardados em outro local? Qual o motivo? Tem que ser, obrigatoriamente, no Convento das Mercês? É por que ele faz parte do “patrimônio cultural da humanidade”? Esta é a razão? Esta é a vontade do “Dono do Mar”? Ele ainda manda na província? Manda no atual governo? Qual é? Existe algum pedido especial? Estamos mesmo num período de mudanças? Por que o silêncio em torno do assunto? Cadê o atrevimento do começo do ano passado? Eram bravatas?

Os museus são instituições que devem ter funções educativas. Tiranos e chefes de quadrilhas, devem ser sempre denunciados (não cultuados), independente se eles foram presidentes, papas ou comandantes do tráfico. Nesses processos de construção de uma memória social, existem acertos entre homens de poder. Mas, na história concreta, registrada no lado B deste mesmo disco, não há entendimento entre a dor do oprimido, com o chicote do opressor.

No Maranhão, por exemplo, não dá para conciliar os traumas e as cicatrizes dos torturados com a truculência do ex-presidente da ARENA, o partido dos torturadores. Não dá para conciliar o sangue dos inúmeros camponeses mortos com a memória de um padrinho da grilagem. Não dá para conciliar a dramática resistência dos povos da terra com a de um aliado de enclaves e madeireiros. Não dá para conciliar o grito dos que lutaram pela liberdade de expressão com o poder de quem concentrou a mídia e usou e abusou da censura. Não dá para conciliar o drama dos que morreram de fome com o mesmo grupo que promove a miséria.

Enfim, é impossível atender ao interesse público num mesmo espaço onde está sendo reverenciada, de forma direta e indireta, a memória de um oligarca, mesma que esta reverência venha a se resumir a livros, presentes e documentos doados... Não se muda uma sociedade com discursos em palanque, propagandas na TV ou frenéticas mensagens em redes sociais. A mudança vem, entre outras ações, junto a processos de formação, subvertendo uma cultura política... Neste caso tratado aqui, o atual governador vacila diante de uma questão simbólica, que seria bem simples de agir. Bastaria extinguir a Fundação de Sarney, mudar o seu acervo de endereço e dar outra função ao prédio. Uma função com verdadeira relevância social.

Mas, como isso ainda não foi feito, o Convento continua a ser um símbolo a ser resgatado. Afinal, São Luís não precisa de um Taj Mahal da vergonha. Em junho de 2013, bem antes da eleição, o povo gritou nas ruas: “Sarney, ladrão, devolve o Maranhão!”. Flávio Dino já esqueceu? A dignidade não faz conciliação com o fascismo, nem com a máfia. Vamos gente! Chamem novamente o caminhão da mudança! Em janeiro do ano passado, ele certamente enguiçou a caminho do Desterro...

*Editorial da 63º edição do jornal Vias de Fato (janeiro de 2016).

https://www.youtube.com/watch?v=rgEgMpxRvLY

 

 

Ka’apor resistem às ameaças, agressões e mentiras de Madeireiros e o governo não faz nada

 

Foto de Vias de Fato.

 

Nós, povo Ka’apor seguimos nosso projeto de vida, valorizando nossa cultura, língua e tradicões; cuidando de nosso povo e protegendo nossa floresta. Tudo isso vem garantindo vida longa para nosso território e nosso povo. Desde a chegada dos primeiros Karaí no Brasil, nós e todos os outros parentes de todo o país, como os Tupinambá, como os

Kaiowá, como os Terena, como os Munduruku e outros parentes que estão sendo atacados e assassinados, continuamos existindo e resistindo. Aqui no Maranhão não é diferente. O nosso sofrimento aqui na região aumentou quando o governo trouxe o Exercito e Karaí para abrir a BR-316, criar povoados, colocar fazendas, expulsando nossos

parentes, diminuindo assim nosso território. Depois funcionários da Funai trouxeram muitos vícios para dentro de nossas aldeias: comidas e bebidas da cidade, roupas de branco, doenças, ensinaram fazer pastos, criar do jeito dos karaí, fazer amizades com karaí, vender nossas caças, vender estacas para cerca dos fazendeiros, ensinaram a derrubar e vender madeira de nosso território. A gente foi vendo que tudo isso era

para destruir nosso território, nossa vida. Como não garantiram segurança e proteção, a gente decidiu mudar os rumos de nossa vida a partir de 2009 com encontros de educacão, saúde, proteção de nosso território.

Decidimos em nossa grande assembléia de dezembro de 2013

que para continuar vivendo dentro de nosso território a gente precisaria se defender e se proteger da violência dos principais agressores que são os madeireiros que enganam nossos parentes e destroem nossa casa que é a floresta. A partir dai passamos a fortalecer nossas formas de educar nossos filhos conforme nossa cultura, buscar maneiras de proteger nosso território, vigiando e limpando os limites, fechando ramais de invasores, criando uma guarda florestal ou agroflorestal, que

além de vigiar e proteger, estão ajudando a recuperar nosso território com formas antigas e pequenas roças que oferecem muitos alimentos para nossa sustentabilidade. Criando áreas de protecão para nossos parentes recuperar o que foi destruido pelos karaí. Começamos a participar mais na gestão de nossa saúde, nossa educacão. Assumimos a assistência e garantia de benefícios sociais para nossos parentes.

Resolvemos retomar nossas formas antigas de organização, decisão e viver nas aldeias. Criamos um acordo de convivência para acabar com os vícios dos brancos nas aldeias, proteger nosso território, valorizar e fortalecer nosso jeito de ser Ka’apor.

Tudo isso fez os Karaí da cidade,dos governos, ficar com raiva da gente, falar mal de nosso trabalho e dificultar a garantia de nossos direitos. Como a nossa força e organizaçao cresce, eles ficam incomodados. Agora estão colocando incêndios nos limites de nosso território no tempo do verão, políticos

oferecendo presentes falsos para lideranças buscando dividir nossos parentes, madeireiros perseguindo lideranças e apoiadores de nossa luta, organizando invasão de aldeias.

Como tomamos essa decisão em nossa vida só tivemos como respostas: caçadores continuam entrando em nosso território para roubar nossa comida e de nossos filhos; estaqueiros e madeireiros querendo entrar com máquinas e caminhões para derrubar, destruir, roubar madeira para as serrarias, cerâmicas, movelarias, padarias; ameaçam e perseguem nossas lideranças, as pessoas que defendem e apoiam a

gente; atiraram em nossos parentes como aconteceu com Sarapó Ka'apor, Janay Ka'apor e Mytuhiran Ka'apor em 2014, depois com Serumi Ka'apor e Rotemir Ka'apor em 2015; invadiram aldeias como fizeram como Yparenda (Agosto/2013) e Turizinho (Dezembro/2015) e matar, como fizeram com nossos parentes Rubinete Ka'apor (Setembro/2009), Tajiran Ka'apor (2011), Pakuriró Ka'apor (Janeiro/2014) e Eusebio Ka'apor (Abril/2015); fazendeiros querendo voltar colocar

pastos dentro de nosso território; políticos querendo dividir o nosso povo. Nunca ninguém do governo procurou resolver essas situações. Os que invadiram a aldeia Turizinho, roubaram nossos equipamentos e materiais de trabalho na mata e atiraram em nossos guardas agroflorestais que estavam identificando focos de incêndios na região da Vitória da Conquista, estão andando livremente na cidade de Zé

Doca, inclusive a pessoa que estão dizendo que está desaparecida, mostrada no dia 23 de dezembro de 2015 na reportagem do SBT de Zè doca foi visto por dois indígenas na rua do Banco do Brasil de Zé Doca entre o Natal e Ano Novo. Algumas pessoas que moram no povoado Nova Conquista que não concordam com a ação dos madeireiros estão dizendo que eles estão sujando a comunidade. Tem medo de falar o que

pensam sobre os tiros e invasão da aldeia. Podem sofrer agressão também. Estão dizendo que as pessoas que atacaram nossos parentes e invadiram a aldeia também ameaçam a vida da comunidade por serem pessoas que fugiram da prisão, usam e vendem drogas. Que os madeireiros pagam para algumas pessoas para vigiar caminhões madeireiros, caminhões boiadeiros que estão voltando para terra dos

parentes Awá, no antigo povoado da Vitória. Eles estão oferecendo dinheiro as familias pobres e pessoas que estavam na invasão para que não entregasse quem estaria comandando a derrubada e retirada de madeira de nosso territorio, o ataque com tiros aos nossos parentes, invasão da aldeia turizinho, quem esta monitorando e ameaçando de morte nossas lideranças.

As familias do povoado estão com medo dessas pessoas terem feito isso e permanecerem no povoado. Também falam que alguns madeireiros ainda estão em Zé Doca, Centro do

Guilherme, São João do Caru e Povoado Caip em Paragominas, no Pará. Dia 06 de janeiro os madeireiros pararam e bateram em nosso parente na estrada da Conquista que retornava para sua aldeia vindo de Zé Doca. O governo do Estado nunca mandou a secretaria de meio ambiente fechar serrarias, cerâmicas, movelarias, padarias, prender caminhões de madeireiros que circulam na BR e nas cidades da região.

As prefeituras nunca pararam esses locais que exploram madeira de nosso terrritório. A gente acha que o governo e as prefeituras estão ganhando dinheiro também com esse tipo de agressão ao nosso território. Muitos políticos da região também apoiam a agressão ao nosso território. Eles falam e mentem pra gente, como falou algumas pessoas que estão apoiando candidatos a prefeito de Zé Doca: "esses

índios nem dão voto, só despesa pro governo". Ainda falam: ''pra que esses indios querem tanta terra e ficam brigando por causa de madeira...mata não desenvolve a região''. Tudo isso mostra que não acreditamos em nenhum político e governo da região. Eles só tratam a gente com preconceito e violência de todas as formas. Por isso que vamos continuar educando nossos filhos de acordo com nossa cultura, protegendo e vigiando nosso território do nosso jeito para a gente

poder plantar para a gente viver dentro dele e recuperar as áreas que eles destruiram, mas cuidando das aldeias e de nossos parentes para viver com saúde. Vamos continuar respeitando nosso acordo de convivência, nossas formas de organização e decisão para viver em diálogo e na paz.

 

Conselho Gestão Ka'apor.

 

ENTREVISTA DAVI COELHO

No final de 2015, em dezembro, surgiu uma notícia ruim em São Luís: o Cine Lume poderia fechar as portas. Mas, logo em janeiro, veio a informação de uma campanha para mantê-lo vivo. Localizado no bairro do Renascença II, ele é, ao lado do Cine Praia Grande, a única opção na capital maranhense para quem gosta de ir ao cinema e quer fugir das salas de Shoppings, com suas produções milionárias e essencialmente comerciais, a maioria feita nos EUA e, uma ou outra, no Brasil (de padrão Global).

Já o Cine Lume oferece a São Luís lançamentos dos mais diversos cantos do mundo, incluindo produções independentes, autorais, do circuito alternativo. Somente nos primeiros 15 dias de janeiro, colocou a disposição da cidade os filmes Labirinto de Mentiras (Alemão), Eu sou Ingrid Bergman (Sueco), O Ciclo da Vida (China), Diário de uma camareira (Francês) e Boi Neon (Brasil/Uruguai/Holanda). Só o filé! Ou o mocotó, dependendo da preferência do freguês... O cardápio na verdade é bom, farto e variado. Os problemas são os altos custos para a manutenção da sala, a falta de incentivos públicos e privados e certa ausência de plateia. Diante da situação (e em apoio à nova campanha), o jornal Vias de Fato foi ouvir Davi Coelho, o atual diretor artístico do Cine Lume. Ele é formado em História pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), com pesquisas e estudos na área de Cinema, incluindo teoria, linguagem e crítica cinematográficas.

Davi ajudou a conceber a disciplina de História e Cinema pela UEMA, onde participou de festivais de curta-metragem. Ministrou oficinas e palestras pelo SESC-MA com diversas temáticas, tais como Nouvelle Vague (2011) e Análise de Filmes (2012). Desempenhou, por quatro anos, a atividade de Produtor Executivo do Núcleo de Cinema na Mostra SESC Guajajara de Artes. Entre 2012 e 2014 ministrou diversas edições do curso/oficina “Introdução à Linguagem Cinematográfica” pelo SESC-MA e pelo Festival Vídeo de Bolso (UFMA). Pelo Lume, ministrou o Curso de Férias “Introdução à Linguagem Cinematográfica”. Abaixo, a entrevista (concluída por e-mail).

Por Emilio Azevedo

Vias de Fato - Como está a campanha lançada pelo Lume, neste início de ano? Explique, para os nossos leitores, a campanha e a importância dela. 
Davi Coelho - O Clube Lume é um sistema de fidelidade. É uma alternativa que criamos para tentar evitar o fechamento do Cine Lume, em atividade há três anos no Office Tower. Montamos quatro categorias e cada uma delas dá direito a uma quantidade de ingressos para o Cine Lume e locações para a Backbeat Locadora (locadora da Lume Filmes que funciona há vinte anos em São Luís, hoje com mais de 12 mil filmes no acervo). O assinante também recebe a camiseta do Clube Lume, além de DVDs e livros da Lume Filmes. É um acordo vantajoso tanto para o assinante, que tende a gastar menos frequentando mais, quanto para o Cine Lume, que fideliza seus clientes, aumentando as chances de continuar em funcionamento.

Vias de Fato - De acordo com um levantamento da Agência Nacional do Cinema (Ancine), no ano passado, apesar da crise econômica, até o mês de setembro, a renda nos cinemas brasileiros acumulou uma alta de 18%, comparado ao mesmo período em 2014. Ainda entre janeiro a setembro do ano passado, foram abertas 183 novas salas de cinema no Brasil, mais do que 2014 inteiro. Você acha que estes números refletem salas que exibem filmes tidos como “mais comerciais”? Como você observa estas informações da Ancine?
Davi Coelho - O crescimento é positivo, mas se refere em grande parte à ampliação do complexo de shopping centers - o cinema de multiplex se tornou um item indispensável dos shoppings. Se cada um tem pelo menos cinco salas e só em São Luís vimos abrir três novos shoppings nos últimos anos, imagine esse número ampliado para todo o país. Infelizmente, as salas de circuito alternativo como o Cine Lume correm por fora dessa expansão.

Vias de Fato – O Riba, dono da livraria Poeme-se da Praia Grande, nos disse recentemente que São Luís havia se tornado uma cidade onde todo dia fechava uma livraria e abria um shopping. Comente esta observação e diga se ela tem alguma relação, mesmo que indireta, com os problemas enfrentados pelo Lume.
Davi Coelho - É um problema bem complexo. Não acho que dá pra responsabilizar exclusivamente o público por esse fenômeno. Penso inclusive que esse boom de novos cinemas é algo realmente curioso, já que nunca foi tão fácil ter acesso a filmes como hoje. Vivemos na era da Netflix com seus bilhões de dólares investidos em conteúdo próprio. A comodidade do download facilitado pelas conexões cada vez mais velozes de banda larga. Tvs por assinatura nunca estiveram em tantas casas. Ou seja, convencer as pessoas a abrir mão de seu conforto para irem ao Cinema é cada vez mais difícil. No entanto, cada grande lançamento do Cinema comercial destina uma porcentagem assustadora de seu orçamento para a publicidade - atrelados a salas de cinema cada vez melhor equipadas em som e imagem. Esses casos sobrevivem.

Vias de Fato - Existe um programa, do governo federal, chamado Cinema Perto de Você, que reúne um conjunto de mecanismos voltados à abertura e a modernização de salas de cinema em todo o Brasil. Segundo os sites oficiais, “cerca de 250 salas já receberam financiamento público desde o início do programa”. Esta seria uma alternativa para o Lume?
Davi Coelho - Possivelmente. O processo de digitalização a que os cinemas brasileiros foram submetidos a partir de 2012 ainda é uma avalanche que segue levando pela frente pequenos Cinemas, limitados em suas programações pelo crivo da tecnologia. O sistema de distribuição é outro totalmente diferente, por exemplo. Então com certeza os editais de financiamento e auxílio a pequenos exibidores da Ancine podem sim salvar o Cine Lume.

Vias de Fato - Em recente documentário sobre Ingrid Bergman, exibido no início deste ano no Cine Lume, é dito que depois que ela passou algum tempo afastada de Hollywood e foi trabalhar com diretores europeus, teria percebido “uma nova função social do cinema”. Em sua opinião, qual a função social do cinema?
Davi Coelho - Função de transformar, de transgredir, de encantar. De ser válvula de escape. De ser fonte de conhecimento. De ser uma janela para outras cidades, outros países, realidades diferentes das de quem assiste. A função do Cinema é muito maior que seu material em si. É uma fonte que nunca se esgota e que nunca é igual.

Vias de Fato - Que tipo de função social o Cine Lume cumpre em São Luís?
Davi Coelho - Eu gosto de pensar que o Cine Lume é um "Cinema de Alternativas". É característica de uma cidade desenvolvida que seu cardápio cultural seja vasto, que exista opções para todos os estilos e gostos. O público precisa ter acesso ao cinema comercial, é claro, mas também deve ter à disposição, salas que exibam filmes de outras nacionalidades, outros estilos de produção, o cinema independente etc. Seria uma pena se toda semana, vários filmes deixassem de ser exibidos em São Luís por falta de sala que os programe. Portanto, o "cinema alternativo" (essa titulação que faz muitos torcerem o nariz) é um ganho para a cidade. Todos ganham. O Cine Lume é um "cinema de alternativas" ao trazer, toda semana, uma estreia de Cinema que soma ao cardápio cultural da cidade - e oferece uma alternativa àqueles que, por ventura, desejarem assistir a algo diferente.

Vias de Fato - Fale um pouco sobre a escola Lume de Cinema.
Davi Coelho - A Escola Lume de Cinema começou em 2015. Já era um projeto antigo do Frederico Machado que ganhou força depois das cinco edições bem sucedidas do curso de Linguagem Cinematográfica que ministrei no Cine Lume meses antes. É um projeto muito bonito que oferece educação em Cinema com professores e cineastas vindos de todo o Brasil para o público de São Luís. Apesar da temporada de desestabilidade que enfrentamos, a Escola deve voltar em breve com um novo curso. Os interessados podem acessar o site da escola (www.escolalumedecinema.com).

Vias de Fato - Qual sua avaliação sobre a programação dos cinemas nos shoppings de São Luís?
Davi Coelho - A programação dos "cinemas de shopping" é o Cinema comercial, correto? A minha avaliação é a mesma de sempre. O cinema comercial responde aos estímulos do público. Se filmes de heróis fazem sucesso, novos filmes de heróis serão produzidos para satisfazer a demanda do público e assim por diante. Eu considero fundamental, para quem aprecia Cinema, estar sempre conectado com o que se produz na atualidade. Eu adoraria ter estado na plateia dos anos 60 para ver Psicose na estreia. Mas não estive. Estou hoje e posso ver o que está em cartaz hoje. Acho importante, como disse, que o público não esteja à mercê de um único tipo de filme. O Cinema é múltiplo demais e as cidades precisam desse contato com essa universalidade.

Vias de Fato - Você ministrou palestras sobre A Nouvelle Vague (Nova Onda), movimento do cinema francês, da década de 60, que tinha um caráter um tanto transgressor. Hoje, qual a atualidade desse movimento? Em que ponto ele serve como referência?
Davi Coelho - Sim, deve ter sido minha primeira oficina, ainda pelo SESC. O movimento cinemanovista em geral, não somente o francês, sempre será uma referência ao indicar que fazer Cinema não tem restrições. Os idealizadores da Nouvelle Vague defendiam que é possível fazer Cinema sem os aparatos milionários dos grandes estúdios, captando a realidade do cotidiano, da vida como ela é. Uma máxima que Glauber Rocha mais tarde traduziu para "Uma câmera na mão, uma ideia na cabeça". O período em que vivemos torna esse enunciado ainda mais próximo, já que é possível fazer filmes até com smartphones. Os grandes estúdios perderam o monopólio do fazer fílmico há muito tempo. O próprio Cinema não é mais o único canal de audiovisual desde os anos 50, com a TV. E desde 2005 com o Youtube. Mas isso já responde outra pergunta.

Vias de Fato - Você também já tratou; em outras palestras, sobre o tema “Análise de Filmes”. Fale sobre isso.
Davi Coelho - A oficina de Análise de Filmes foi o embrião do curso "Linguagem Cinematográfica" que ministrei inúmeras vezes pelo SESC-MA e pelo Cine Lume. A intenção do curso é explorar todos os departamentos que compõem o filme: a direção de arte, a direção de fotografia, o som, a montagem, o roteiro, a narrativa, a função do diretor. Ao compreender a engenharia do filme, o espectador se torna mais atento e consegue fazer uma leitura muito mais abrangente do filme. A experiência de assistir a um filme se torna muito mais proveitosa e muito mais prazerosa também. Vamos fazer mais edições deste curso em breve. Sou muito grato ao Frederico Machado e a Lume Filmes pela oportunidade de trabalhar com Cinema. Nós acreditamos muito nisso e nos empenhamos cada vez mais para fazer bem feito. Esperamos que o Clube Lume seja um caminho de melhores tempos no Cine Lume.

 
Foto de Vias de Fato.

 

 

EMILIO AZEVEDO*
 

Acompanhada do sete cordas João Eudes, Tássia canta Nara. Foto: Rejane Galeno
Acompanhada do sete cordas João Eudes, Tássia canta Nara. Foto: Rejane Galeno

Foi num lugar muito especial, o bar do senhor Francisco de Assis Leitão Barbosa, no Centro de São Luís. Ocorreu no dia 22 de janeiro de 2016. A cantora arrebentou. Deitou e rolou, fez e aconteceu. Introjetou letras e músicas, soltando a voz, descendo literalmente do salto e fazendo chover literalmente. Enfim, assistido por uns 70 privilegiados, foi muito interessante o show que Tássia Campos fez ontem, no Chico Discos, homenageando Nara Leão.

Acompanhada do músico violonista João Eudes, ela cantou composições de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Ronaldo Bôscoli, João Gilberto, Fagner, Zé Kéti, João do Vale, Roberto e Erasmo Carlos, Bené Nunes, Ari Barroso e Chico Buarque de Holanda. Destaque (as que mais me arrepiaram) para Carcará (João do Vale e José Cândido), João e Maria (Chico Buarque e Sivuca) e Noite dos Mascarados (Chico Buarque). Ao todo foram vinte canções, com mais duas após os pedidos de “mais umas”.

Tássia agrada naturalmente pela voz, misto de talento e trabalho. Como me disse Leo (o do outro Bar), “é uma menina estudiosa”. Mas, além da dádiva e do estudo, ela me chama a atenção por certa agressividade. Não por uma agressividade fruto da grosseria inconsequente, ou de algum tipo de estupidez. Falo de uma agressividade que se reflete (também) no palco e me parece relacionada com sensibilidade, ternura e insubordinação, consequência de inquietações artísticas, sociais, místicas, existenciais, libertárias.

É a mesma bendita insubordinação que fez com ela mandasse “se fuder”, um burocrata que certa vez tentou atrapalhar seu trabalho no antigo bar Odeon, ou então, a ternura que lhe deixou de olhos arregalados, ao observar os versos de Carlos Drummond de Andrade, declamados pela atriz Rosa Everton, na abertura deste mesmo show dedicado a Nara Leão. É a sensibilidade de uma operária da arte, que com seu cotidiano de cigarra-formiga, enfrenta diariamente “os batalhões”, “os alemães e seus canhões” e que guarda “o seu bodoque, ensaiando rocks para as matinês”.

*Emilio Azevedo é jornalista do Vias de Fato

http://zemaribeiro.org/2016/01/23/show-de-sensibilidade/

Campanha

Assine agora mesmo o Vias de Fato!

Compartilhe

Edições - Jornal Vias de Fato

Fique antenado


videoteca

Videos

GUERRILHAS